REVOLUÇÃO SILENCIOSA
Mesmo que sejam observados nos animais instintos apropriados para a proteção dos filhotes e a ajuda aos bandos e agrupamentos, o ser humano demonstra ter um maior poder de escolha quanto à ajuda. Pessoas podem decidir ajudar umas às outras sem que isso implique em ganho direto ou no benefício da sua própria proteção. Ocorrem situações em que alguém perde a vida para ajudar a um desconhecido que necessitava dela. Pode-se dizer que, depois de incorporada tal habilidade e repetida, de geração para geração, durante centenas de anos, o desejo de ajudar tornou-se um instinto do ser humano. Porém, como instinto, ainda é muito jovem e, por isso, ainda não tem o poder de interferir na política e na sociedade de modo imperioso. Ainda pede licença...
Também podemos dizer que a habilidade de falar ultrapassou o limite da aprendizagem condicionada para se tornar um instinto. Desde as primeiras semanas um bebê tenta falar, imitando os sons que ouve de outras pessoas... até que começa a relacionar os sons com coisas, animais e pessoas e, aí, começa a identificar cada um com sons correspondentes.
Ambas as habilidades, que parecem ter se tornado instinto, estão em plena evolução. As estruturas de organizações e da própria sociedade apresentam sinais de enfraquecimento e começam a ruir. Isso é especialmente observado nas composições empresariais de grande porte... que vêm perdendo a clareza da direção e partem para o tudo ou nada: sobreviver e continuar a crescer... crescer... crescer, sem precisar haver sentido nisso. Possivelmente um vício a ser percebido somente depois das ruínas estruturais iminentes: tomar conta do seu pedaço e tomar o pedaço dos outros.
Não precisamos pensar muito para perceber a limitação do sistema econômico das grandes potências, sejam países ou organizações econômicas. Sabemos que a própria dimensão gigantesca será o pior inimigo delas em um momento futuro. Não há dúvidas de que a fraqueza se junta para compor força, enquanto os fortes se separam, na ilusão de que sua força é indestrutível, como diria o cientista social Robert R. Carkhuff.
As habilidades que podem ter se tornado instinto, o desejo de ajudar e a fala, certamente foram as diferenças entre ser humano e animais que possibilitaram a transformação de recursos naturais para criar bens de consumo e gerar satisfação e conforto. Entretanto, o frenetismo da produção crescente, da competição do mercado, do consumismo e da administração da escassez para benefício de poucos, vem ocupando o espaço natural e o tempo do ser humano. Não há limite para o trabalho e a exploração dele. Assim, a utilização dos dois “instintos” para aumentar o ganho humano, ao ficarem como base das sociedades apenas no início das interações de negócios, e impedidas de atuarem a partir do poder estabelecido pelas entidades, tornaram-se pedintes. Numa sociedade típica não se pode falar o que se pensa sem autorização daqueles que brilham no poder. Também não se pode ajudar a quem não tem poder se os donos dele mantêm consignado quase todo o potencial de contribuição dos indivíduos.
Contudo, a esperança existe: o poder da fala e o desejo da ajuda vão ter seu crescimento continuado, até se tornarem quase naturais na vida das pessoas e da sociedade sobre o planeta. Quando o que as pessoas pensam puder ser expressado, os questionamentos serão tão fortes que impactarão a estrutura social. O desejo de ajudar vai, ainda, surgir nas lideranças poderosas, após o fracasso do modelo atual da exploração e do consumismo. A ajuda aos outros será parte do padrão de comportamento. Não antes de muito sofrimento...
prc
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