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VONTADE

Para satisfazer desejos, atender necessidades e cumprir obrigações, nós fazemos ou deixamos de fazer muita coisa ao longo de um pequeno espaço de tempo. Eu desejo, nesse instante, folhear um livro que está guardado no escritório a cinco quilômetros daqui. A não ser que esse desejo cresça e ultrapasse a condição de ser apenas a imaginação de que seria bom tê-lo aqui agora, ele passará ou será realizado muito mais tarde. De outro modo, tal desejo poderá se transformar em algo potencialmente mais significativo para mim e, assim, determinar que eu faça acontecer: o livro estar em minhas mãos. Posso ir buscar ou solicitar que alguém o faça, um taxista, um ‘motoboy’, quando existe alguém que tenha acesso ao local onde o livro esteja guardado. A ação imediata, por ímpeto, geralmente é estimulada pelo desejo. Quando há interrupção do ímpeto, uma ‘parada’, uma reflexão, a dúvida, há a possibilidade de nascer a vontade. Para isso, alguns ingredientes precisarão ser acrescentados ao desejo: lembrança de mim mesmo como alguém que deseja, análise da importância do que é desejado em relação às demais inspirações de desejo, identificação da necessidade de ter, no caso o livro, e, principalmente, a decisão de tê-lo, o que implica num compromisso íntimo de fazer com que isso aconteça. 


 


Podemos, também, entender que a vontade é uma espécie de gerenciador do senso de obrigação, desejo e necessidade. Quando há transformação do senso de obrigação, dos desejos, sonhos e visões, que ativam a iniciativa de fazer algo sem um compromisso pessoal de realizar, passa a ser assumido como compromisso na tomada de decisão de fazer ou de não fazer algo, de ir ou não a algum lugar, de adotar ou não uma determinada atitude diante das circunstâncias. Agitam nosso corpo e nossa mente, as emoções de uma quantidade enorme de sonhos e visões do ideal. Em todos os campos da vida, principalmente físico, emocional, intelectual, social, empresarial, sexual, espiritual, há estímulos que atingem nossa percepção. No meio de tantos fatores, a capacidade de produzir a vontade será a determinante na conduta de uma pessoa.


 


Se eu me sentir obrigado a escovar os dentes após ter comido um pedaço de chocolate e tiver o desejo de estar com os dentes mais limpos do que estão agora, posso decidir interromper o que estiver fazendo para escová-los. Posso fazer isso não apenas por obrigação ou por desejo, mas por uma decisão com o propósito de cuidar bem de meus recursos pessoais. Então, empenhar-me em ir ao lavatório, pegar a escova, colocar pasta, fazer todo o trabalho de limpeza foi determinado por minha decisão de interromper a seqüência de comportamento anterior e introduzir uma escolha, numa ruptura. Assim, enquanto escovar os dentes, estarei exercendo meu próprio ser, em vez de estar submetido à uma seqüência quase automática de respostas ao que acontece no ambiente. Gurdjierf foi um dos pesquisadores que dedicou grande parte da vida na busca do conhecimento acerca do ser humano, especialmente com o objetivo de aprender alguma alternativa para que o ser humano pudesse sair do automatismo, ‘deixar de ser apenas uma máquina’. Numa de suas referências à vontade, exemplificou: Um homem cansado chega em casa, onde estão dispostos deliciosos pratos de sopa à mesa. Lá fora chove e faz frio. Então, por exercício da vontade, ele resolve sair e caminhar alguns quilômetros, antes de se alimentar. Num exemplo tão nobre quanto esse, uma secretária está indo para o escritório onde trabalha numa segunda-feira, bem cedo. Tem que cumprir a obrigação de chegar no horário. Ela quer, também, realizar um desejo: organizar sua mesa e colocar uma flor amarela sobre esta. Quando determina para si mesma que estará no escritório com disposição para trabalhar, fazer o que for necessário e criar, a vontade se sobressairá acima da obrigação. Bem no seu íntimo, no núcleo de seu ego, terá ocorrido a transposição. Assim, ao cumprir a obrigação de ir para o trabalho, ela estará conduzindo sua atenção e sua dedicação para estar onde quer e fazer o que escolhe. Se realizar ou não o desejo de arrumar a mesa e colocar em cima dela uma flor amarela, isso já será o resultado do empenho, porém, no mínimo haverá alguma satisfação íntima de exercer seu ser: ser ela, estar onde quer estar, fazer o que decidiu fazer. De maneira simplista, podemos dizer que ela está sendo uma pessoa X num lugar X, ou seja, uma pessoa no seu próprio eixo,


Muitos passam a vida cumprindo as obrigações pessoais e profissionais e as exigências sociais. Vivem para fazer aquilo que têm que fazer: escovar os dentes, ir à escola, trabalhar, casar-se, ter filhos, instruí-los, cuidar dos documentos, dos armários, da casa, da alimentação, das relações sociais, do sexo, dos prazeres, do consumo... até chegar a morte. O que vem depois? Podemos supor, desejar, ter fé, mas não parece saudável simplesmente abandonar tudo do mundo terreno e esperar que após a morte sejamos o que devemos ser. Também, não tem sido muito construtivo para o ser humano ir para onde as obrigações ordenam ou buscar suprir apenas as necessidades básicas ou, ainda, buscar riqueza  e fama por compulsão.


O Arco-íris


Imaginemos que um maravilhoso arco-íris esteja às nossas costas. Não vemos sua beleza e, por isso, não sabemos que ela existe. Se soubermos que ele está lá e o olharmos, veremos a beleza das cores naturais e, sem deixar de caminhar na direção para a qual estamos indo, nos enriquecemos com aquela visão.  De modo análogo, está a possibilidade de conhecer nosso imenso potencial de ser e exercer o nosso ser, enquanto vamos a algum lugar fazer alguma coisa. Se acreditarmos que existem meios de exercer a vontade enquanto vivemos, poderemos fazê-la estar presente mais vezes e, ao exercitá-la, agir como seres humanos realizadores.


prc


   
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